A hora da estrela

Clarice Lispector

A hora da estrela

Miséria nossa de cada dia
Publicada pouco antes de sua morte, em 1977, "A Hora da Estrela" é a última obra de Clarice Lispector. Nesse livro, que tem como narrador Rodrigo S.M., alter ego da autora, há o retrato de uma jovem nordestina, Macabéa, que tenta sobreviver na cidade grande. A narrativa, complexa, é marcada pela presença dos conflitos existenciais da protagonista, bem como do próprio Rodrigo S.M. Em "A Hora da Estrela", ficam visíveis algumas das principais características dos autores da terceira fase modernista no Brasil (posteriores aos romances regionalistas), como a utilização de análise psicológica mais aprofundada dos personagens, que revela, por meio da narrativa interior, o fluxo de consciência e o intimismo. No plano formal, há a preocupação por uma linguagem mais elaborada, com a presença das digressões, o uso inusitado da pontuação, ou mesmo sua ausência, as metáforas e a metalinguagem. Na Dedicatória, a autora deixa claro que se converterá em um ser fictício, Rodrigo S.M., como se fosse outra faceta de sua personalidade, o que não compromete a consciência de sua individualidade. Talvez Clarice tenha optado por se tornar um narrador masculino para poder ser mais agressiva e menos sentimental, o que caracterizaria uma ironia da autora em relação à condição da mulher na sociedade, vista normalmente como um ser frágil e piegas. Assim, por meio do recurso digressivo, a autora busca dialogar com o leitor, despertando nesse um papel mais ativo, que é o de compartilhar a culpa que ela sente e a responsabilidade que tem para com a injustiça social e a alienação simbolizadas por Macabéa. A obra possui, também, uma peculiaridade: antes do início da narrativa, há, na primeira página, o título do livro, seguido de 13 outros títulos, inclusive um repetido, além da assinatura manuscrita de Clarice. A estrutura da obra tem três grandes eixos narrativos e simultâneos, o que torna o enredo fragmentado e quebra a tradicional construção linear. A primeira narrativa tem Rodrigo S.M. relatando a história de Macabéa; a segunda mostra o narrador falando das próprias experiências e do drama existencial que vive; na terceira, vemos o próprio processo de construção da obra, o que caracteriza a metalinguagem.

Fonte: https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/a-hora-da-estrela-analise-da-obra-de-clarice-lispector/